sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Um certo capitão Rodrigo


  Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o cap. Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido:
  — Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!
  Havia por ali uns dois ou três homens, que o miraram de soslaio sem dizer palavra. Mas dum canto da sala ergueu-se um moço moreno, que puxou a faca, olhou para Rodrigo e exclamou:
  — Pois dê! (...)
   — Incomodou-se comigo? — perguntou, jovial, examinando o rapaz de alto a baixo.
  — Não sou de briga, mas não costumo agüentar desaforo.
  — Oôi bicho bom!
  Os olhos de Rodrigo tinham uma expressão cômica.
  — Essa sai ou não sai? — perguntou alguém do lado de fora, vendo que Rodrigo não desembainhava a adaga.
  O recém-chegado voltou a cabeça e respondeu calmo:
  — Não sai. Estou cansado de pelear. Não quero puxar arma pelo menos por um mês. — Voltou-se para o homem moreno e, num tom sério e conciliador, disse: — Guarde a arma, amigo.
  O outro, entretanto, continuou de cenho fechado e faca em punho. Era um tipo indiático, de grossas sobrancelhas negras e zigomas salientes.
  — Vamos, companheiro — insistiu Rodrigo. — Um homem não briga debalde. Eu não quis ofender ninguém. Foi uma maneira de falar...
  Depois de alguma relutância o outro guardou a arma, meio desajeitado, e Rodrigo estendeu-lhe a mão, dizendo:
  — Aperte os ossos.
  O caboclo teve uma breve hesitação, mas por fim, sempre sério, apertou a mão que Rodrigo lhe oferecia.
  — Agora vamos tomar um trago — convidou este último.
  — Mas eu pago — disse o outro.
  Tinha lábios grossos, dum pardo avermelhado e ressequido. (...)
    — Pois le garanto que estou gostando deste lugar — disse Rodrigo. — Quando entrei em Santa Fé, pensei cá comigo: capitão, pode ser que vosmecê só passe aqui uma noite, mas também pode ser que passe o resto da vida...
  — E o resto da vida pode ser trinta anos, três meses ou três dias... — filosofou Juvenal, olhando os pedacinhos de fumo que se lhe acumulavam no côncavo da mão.
  E, quando ergueu a cabeça para encarar o capitão, deu com aqueles olhos de ave de rapina.
  — Ou três horas... — completou Rodrigo. — Mas por que é que o amigo diz isso?
  — Porque vosmecê tem um jeito atrevido.
  Sem se zangar, mas com firmeza, Rodrigo retrucou:
  — Tenho e sustento o jeito.
  — Por aqui hai também muito homem macho.

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